Sem título

14 set

É uma pena, sentado em um destes bancos que só se encontra uma vez na vida, É uma pena que eu esteja tão atrasado. As rugas faceiras, margeando os olhos, assemelhavam-no a uma árvore, em desenho, que em tons, adequado seria então, uma árvore com casca de pele. Sempre atrasado nessa história que não se vê, suspirava, não existe mais que em um canto qualquer de um retrato, guardado em um livro empoeirado, ao canto de uma estante, sob entulhos das ruínas de uma então Ucrânia; uma formosa flor brotando silenciosamente invade a paisagem cinzenta.
Uma vergonha uma época tão bonita, a despedaçar-se feito o rosto de um boneco de cera, de delicadas feições, esmurrado incessantemente até que se apague a beleza maldita da bondade.

Lampejo do alentejo

22 jul

Em um instante encontraríamos espaço suficiente para este lampejo, afinal, que o é merecido o retrato. E escreveriam-se canções, maremotos populares dessa juventude cansada, que vivendo de mãos dadas com a aversão que lhe convém, mastigaria então a carne exposta. Sentimentos são coisa perigosa, estes opiódes da mente que fingimos abocanhar o peito.

Questão é que, ponderados os acasos e aliterações e verbetes, findaria-se o instante, que é este o qual lho vamo-nos a tomar cerca. Em um canto qualquer daquela blusa listrada, tomaremos então o rumo imediato: a provocação intelectual é o manifesto flertivo que lhe derretia a rabugice, que, fato era, servia feito um decifra-me e te devoro, assim mesmo, com a aditiva que subverte o tradicional dizer.  Óbvio, não deixaria de ser, morrer-se-ia de fome com tantos muros sombreando sua espécie. Todo o rogo torto, porém, é cabível e eis aqui algo que não podemos ignorar, que é o orgulho de uma pessoa tão extensa, quase um país, no sentido bom, se assim o é possível, da palavra.

Bom, pois, que a história é cheia de efemeridades carcomidas e assim, de bom grado aceita-se um pouco de amenidade. Soou a voz ao telemóvel, rouca e entediada, vindo de outra década talvez, titubeando em dançantes argumentos com sabor de comida congelada. A pieguice de hoje é o pão de amanhã. Dito isso, parece óbvio, uma dama cheia de arestas não iria mesmo confirmar com um estrondoso Sim. Mas era feriado, fazia frio, a televisão não estava lá essas coisas e o convite lhe pareceu a melhor das piores hipóteses. Vestiu-se nos piores farrapos, que assim o fazem as mulheres quando desconfiam de si mesmas, ou assim preferem, para evitar decepções. Enfiou-se em um táxi, que pelo avanço das horas pode-se santificar nesta cidade o imigrante que trabalha nas madrugadas frias, ao que lhe agradeceu em nome de Deus a parada.

Deslizou sorrateira, encontrando um canto para proteger-se. Perguntou pelo whisky, selecionou dois ou três homens a lhe oferecerem isqueiros. Tomou duas doses antes de sair, dez minutos antes do combinado. Não suportava mais as pessoas, ou talvez não queria, a esta altura, alguém entre suas pernas que pudesse verdadeiramente fazê-la viva.

Um lugar chamado Quinze Vinte e Três

1 jul

Aquela era, de fato, uma casa muito engraçada. Ainda guardo na memória os detalhes  dos azulejos vermelhos e desenhos de cada pedacinho de mofo que jazia ali. Numa ruelinha sem beira que já nem lembro o nome, número quinze vinte e três.
Lembro-me da sensação ao entrar naquele que viria a ser meu primeiro barraco. A sujeira e a poeira – que são coisas distintas e indistinguíveis – se amontoavam uma sobre a outra e os passos imprimiam pegadas onde fosse. O cheiro de detetização pairando sobre o cemitério de insetos. As baratas resistindo até o ultimo franzir de pernas.
A imensa faxina. Eu ainda menino, com a vida toda enfiada em duas malas. E em sacolas plásticas cheias de nós. Solitário e desbravador. Uns tantos tapetes roubados estendidos no chão. Ao centro, uma mesinha circular de 50 cm com figuras de rosas coladas. O cheiro de detergente que ia cedendo gradativamente ao cheiro de gente. O barraco virando lar. Eu, no alto da noite, sozinho, agachado no chão, admirando assustado aquela enorme sala vazia.
Sem dinheiro para beber. A água esbranquiçada que saia da torneira. O sol ameno e o tom alaranjado que aquela sala adquiria aos sábados. Minha gatinha de patas brancas caçando as moscas. O quintal grunge. As promessas e sonhos. A cozinha cheia de reflexões e amizades. Meu velho quarto de lençóis eternamente usados. As roupas embaraçadas por todo canto.
Os outros quartos, as novas vidas. A triste bela família de saltimbancos. Com almoços e faxinas de domingo, feito uma família. As despedidas. O tempo em que ficamos jogados eu e aquele irmão mais velho que me ensinava violão, desdenhando o mundo que desdenhava a gente. O quarto verde. As poltronas achadas no lixo. A chegada dos outros dois mosqueteiros e a proclamação da república. Os churrascos voluptuosos. O sorriso característico daquela família estranha de garotos. Bolsos furados e chinelos baratos. As camélias vinham de toda a parte conhecer o meu barraco.
Pingo e Fejuca, os gatos yin-yang. As manhãs de ressaca sentado na calçada, muito mais cedo do que qualquer vida andante. A camisa da Seleção Brasileira de Futebol. As rodas de improviso. As composições. Meus melhores amigos. As gargalhadas ao encontrar os dez centavos que faltavam para completar a vaquinha do pastel.
Os móveis que montávamos com as coisas que os outros jogavam no lixo. Os braços de plástico dos manequins. A árvore daquele Natal. A morte do Pingo. As viagens no furgão do Cabeça. As manhãs estendido entre o mato que crescia na beirada dos azulejos. A minha década de 90 perdida, achada e revivida. Nos separamos todos, muitos nunca mais tornei a ver. Mas tenho certeza que todos mencionarão com um olhar de honra ter passado naquele lugar.

Não se importe

16 jun

Não, não ligue para as pessoas que estão rindo de você. Nunca confie nas pessoas que riem demais.  Eles sorrirão insatisfeitos até que você dispare sua roleta-russa e espalhe os miolos da vergonha bem diante de suas caras. Então, não, não se importe com pessoas rindo de você.

Sopro

8 jun

Daqui até o que se pode chamar de melancolia existe um segundo; um sorriso; o amor. Existe o poema; a música; a película fotosensível. Existe a nostalgia da estrada, pavimentada com saudades e cacos de vidro, onde o único destino é uma agonia macia feito a cera fria da vela. O lampejo exausto, em luto eterno por aquilo que não existiu – que, de não existir, morre-se toda noite.
Existe a tristeza salgada, tão antiga quanto o próprio homem. Uma amargura cinza, desimportante e imponente; um sábio passeando incólume através da multidão. Ao limar as gorduras infantis que nutrem o cotidiano, descortina-se: a melancolia pura se sente como um sorriso formado por paisagens cansadas. O sopro diante do abismo que existe entre a vida e o tempo.

Quando eu sonhei estar no lugar do astronauta Michael Collins

19 mai

Da janela vejo um pontinho azul insignificante atirado sem querer vagando aí nem se sabe onde cheio de serezinhos presunçosos com polegares opositores crentes que suas microvidas têm realmente um significado superior dentro desse manto de vazio escuro só porque enxergam em sua faísca existencial o direito de grafitar em algum lugar “nós passamos por aqui”.
O comandante macaquinho, vestindo roupas de nadar no espaço, salta no mundinho cinza e proclama em alto e bom tom a frase que os outros serezinhos mandaram ensaiar diante do espelho, durante noites inteiras. Isto para soar importante na telinha de vidro que eles chamam de televisor e que tem a função de dar de mamar para aqueles todos. “Este é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade, ele diz (e mais adiante fincaria ali um pedacinho de pano que representa, não o bando todo de macacos, mas a sua tribo). O ego tão cheio de gordura para pisar o mais forte possível no chão que se esquece que só desceu primeiro porque não saberia pilotar a barca esquisita de volta pra cá, caso o companheiro o fizesse e algo ocorresse de forma errada.
Nenhum problema. O comandante macaquinho assovia para o companheiro macaquinho, num claro sinal de mergulhe que a água não está fria. O companheiro salta marrento e decepcionado por não poder dedicar aquilo tudo ao amiguinho imaginário que ele inventou para não ter medo da morte. Macaquinhos que são, ambos brincam de saltitar e celebram terem ido até ali, basicamente para pisar e ver como era.
Daqui, estou longe o suficiente. Deles e dos outros, antes de finalmente ter que lhes dar a carona da volta, para que se vangloriem diante dos outros macaquinhos. A glória toda tão insignicante. Fito o vazio imponente, degustando a satisfação de estar o mais longe possível disso tudo. E aproveitar um merecido silêncio. Estar triste é a única condição que existe. Estar só é tudo o que se é.

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N.A.: Michael Collins (Roma, 31 de outubro de 1930), foi um dos astronautas e tripulantes da missão Apollo 11, a primeira a pousar na Lua em 20 de julho de 1969. Ele foi o piloto do Módulo de Comando que ficou em órbita  do satélite e o único dos três tripulantes da missão a não pisar no solo  lunar.

Miúdez.

19 abr

A sensação estranha. As miudezas que só você vai dar atenção. As pequenas maravilhas singulares, charmosas e nostálgicas. Aquele evento dourado, irremediavelmente medíocre, que registramos na cabeça. Os grandes sonhos, as viagens, os amigos, as namoradas, as famílias, devidamente nomeados e arquivados nos seus armários.  As regras, os sentimentos e os deveres.
Todas essas coisas que você chama de lego e amontoa uma em cima da outra para construir uma identidade. Uma identidade que seja feito uma tocha dentro de uma caverna, que derreta a escuridão. Etiquetando os carinhos, as conversas, equalizando as atenções. Inventando sonhos que sejam coerentes ao monte de tralhas que você enfiou garganta abaixo. E as crenças, como quando o seu peito dói e você chama de tristeza, saudade, solidão. Você enumera em uma lista as coisas que te fazem feliz e diz para si mesmo que daqui em diante sua distração será passar os dias tentando descobrir um jeito de conseguí-las mais e mais. E então você se junta a outras pessoas e desperdiça horas falando sobre tudo isso. E sexo, futebol e bebidas. E sapatos, esmaltes e cabelos. Você volta para casa e, com a cabeça no travesseiro, brinca de piscar os olhos para ver como ele muda de posição. E reclassifica, etiqueta, guarda, muda de lugar todas aquelas coisas que você trouxe do mundo lá fora. Feito um astronauta.Você já parou pra pensar nos astronautas? É, eu também. Vestindo um traje especial, solitário e distante. Um mergulhador do universo. Ou será que não é isso?Quando você acorda, não parece que foram só 10 segundos desde que adormeceu? Como uma máquina, que só funciona ligada. Essa máquina, em que veio instalado um negócio que produz uma vozinha invisível toda vez que você lê alguma coisa. Você já reparou em como você pode forçar ela a parecer qualquer outra voz, mas ela espera você se destrair e volta a ser o que era? Ela não parece nem com a sua própria voz. Na verdade, você não consegue nem descrever como ela é.Esse máquina, em que você instalou personalidades, trejeitos e preferências. E você mesmo, ali. Parece uma lâmpada acesa.  Ou um fantasma da máquina. E não é o que todos somos? Todas essas tralhas não valem tudo isso. Você pode inventá-las, trocá-las ou jogar um punhado delas no lixo. E não importa o quanto você pinte-as de ouro. Serão só coisas, que você guarda dentro da sua cabeça. Elas vêm e vão. Isso é só o agora. As grandes mudanças, aquelas que realmente ficam, acontecem em silêncio, quase em segredo, dentro de um cantinho escondido em alguém. E, quando acontecer em você, provavelmente não valerá a pena contar para ninguém. Já reparou que a gente pode ser o que quiser? E a vida é curta.

Mãos

8 abr

As nuvens escorrem pelos olhos, bem acima da colcha de retalhos dos países que eu ainda não sei o nome. O pé sem peso rema vida acima. E te observo, grandiosa, eterna e bonita. Uma deusa menina envolta em seus panos, ronronando meiguices enquanto balança seus cabelos arco-íris.
Já não lembro das mil palavras que aprendi pra te dizer. Já não sei histórias, retratos ou chocolates. Já não sei da nudez quando exposta a carne. Aqui do alto te respiro e te desenho um sorriso. Longe do cotidiano, avizinhando-se naquilo que somente existe. E a tua mão é a tua mão e junto à minha somos. Somos o Eu que nós somos. E seremos, não importa o final que o mundo tenha.

Assim vai…

2 mar

Ali cai, fetal e só,
os pedaços ao redor.
Meio sóbrio, meio susto,
meio vaso de plantar.
“Tudo que vive
pode ser ferido,
e esse é o fim
da inocência”.
Por que não?
Por que não?

Tinta

2 fev

Odeio quando você
não é mais você
e enxergo matizes
de outras paletas
em nossa tela
particular.

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