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Este barco tem destino.
E vagarosamente,
o rebentar das ondas
o empurrará até lá.
Gritem, senhoras e senhores
sobre seus motores e rodeios.
O alto-mar é bem diferente
dos contos de fadas que lhe pintam.
A liberdade a que tanto clamam
não mora nas pinturas,
no tamanho, no valor.
Há um singelo agravo
em ser perdido,
bem diferente
de se perder.
Não é melhor nem pior
um mar de dores
ou a dor dos mares.
A liberdade não existe
em se fazer o que se quer
com o que se pode.
Nem em se fazer
o que se pode
com o que se quer.
Sequer reside ela
em tanto peso.
A liberdade é
uma mentira.
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Era eu um mundo, naquele dia cinza,
quando os canhões dispararam
a gente toda pelos ares.
E o meu cavalo me sorriu,
fingindo-se imponente
frente à banda marcial.
Afeito à guerra de que me fiz,
em mim não haveria ali
humanidade.
Me lambuzei de sangue,
como uma criança
que encontra mel.
Não deixei vida sobre vida
naquele mundinho
infeliz.
E então pude admirar
o límpido silêncio
dentro de mim.
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A vida é boa e
o amor
existe
quando você
me oferece
um sanduíche
posso
conquistar
o mundo
todo
com uma
mão
se você
estiver
segurando
a outra.
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As coisas tolas jogadas em um canto do quarto.
As vezes penso que elas são como dinossauros
e as vezes penso que são como calças divertidas
que não nos cabem mais.
Sinto sua falta, amigo.
Espero que a vida seja gentil contigo
e que você sorria para as coisas tolas.
Elas se sentem muito sozinhas
nesse mundo de hoje.
E no fim, só elas restam.
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é que o sono deste lago daria um belo retrato.
Não sei se sou eu morrendo
ou a vida me empurrando,
mas nada dura o bastante mesmo.
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Sinto uma treva pegajosa em meu peito.
Um escarro de chumbo. Como se o coração
fosse parar a qualquer minuto.
Ter nascido me estragou a saúde.
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Calarei.
Serei forte e
calarei.
Silenciarei
o peito,
a voz,
o eu.
Calarei.
Porque não há
no mundo
lei
e de nada
me sinto
rei.
Farei do peito
o escuro.
E das trevas farei poço.
Minha garganta
será pedra.
Farei da voz um vento.
E lhe engolirei como
um suspiro.
Moldarei meu universo
neste azulejo só.
E as janelas escancaradas
deixarão de ser alvos.
E toda essa gente ruim
esquecerá de mim.
Mil anos
aqui
calarei.
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A humanidade viverá ainda milhares de anos alheia aos caminhos sem volta que decidiu traçar. E eu, sentado no carro, achei um origami em forma de flor.
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Meu bem,
é possível que um dia,
frente a correria,
não me chames de amor,
sem mais nem menos dor.
E nosso lar se desabe,
e eu fique lá, você sabe,
catando o que sobrar de mim.
Sonhando
tua cor acordado
mastigando teu rasgo.
Serã que um dia
eu volto a sorrir?
E pro meu dissabor,
pode ser que te cales,
que procure outros ares
e até novos pares.
A ti vão amar
quase como eu,
sinceros como o meu.
Ai, ai, será?
E eu?
Que falta eu te faço?
Que carinho ou abraço
que deixei lhe faltar?
Eu te amava e você,
sem querer mais ser
a mulher que, um dia,
inventei em você.
Pode ser que eu,
por falta de outro laço
me atire a qualquer braço,
só pra te esquecer.
Pode ser até
que me jogue em vários,
e outros tantos armários
quanto você. Pode ser.
Pode ser até
de eu me afogar na bebida
e maldizer a vida
que vivi com você.
Mas disso tudo, meu bem
eu irei me salvar.
Pode ser até mais bonito.
Você de mãos dadas
em nosso parque
e tua vida,
teu novo teu.
E teu novo amante até
pode ser mais bonito que eu
(com o cabelo que era meu;
o violão que era meu;
o olhar que era meu;
e com tudo que foi meu).
É, pode até ser mais bonito,
mas seria uma pena o título
“o amor, que um dia, eu deixei pra você”.
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Vem. Suspira-me.
Traz-me a primavera de presente,
embrulhada em flor, num papel de cor.
Desabrochada a camisa com todas as brisas
e sabores de outubro. Façamos firula.
Destranca-me as janelas que te abro as pernas.
Uma nova atriz fingindo ser
a meretriz que no fundo ja sabia ter.