Arquivos | abril, 2010

Miúdez.

19 abr

A sensação estranha. As miudezas que só você vai dar atenção. As pequenas maravilhas singulares, charmosas e nostálgicas. Aquele evento dourado, irremediavelmente medíocre, que registramos na cabeça. Os grandes sonhos, as viagens, os amigos, as namoradas, as famílias, devidamente nomeados e arquivados nos seus armários.  As regras, os sentimentos e os deveres.
Todas essas coisas que você chama de lego e amontoa uma em cima da outra para construir uma identidade. Uma identidade que seja feito uma tocha dentro de uma caverna, que derreta a escuridão. Etiquetando os carinhos, as conversas, equalizando as atenções. Inventando sonhos que sejam coerentes ao monte de tralhas que você enfiou garganta abaixo. E as crenças, como quando o seu peito dói e você chama de tristeza, saudade, solidão. Você enumera em uma lista as coisas que te fazem feliz e diz para si mesmo que daqui em diante sua distração será passar os dias tentando descobrir um jeito de conseguí-las mais e mais. E então você se junta a outras pessoas e desperdiça horas falando sobre tudo isso. E sexo, futebol e bebidas. E sapatos, esmaltes e cabelos. Você volta para casa e, com a cabeça no travesseiro, brinca de piscar os olhos para ver como ele muda de posição. E reclassifica, etiqueta, guarda, muda de lugar todas aquelas coisas que você trouxe do mundo lá fora. Feito um astronauta.Você já parou pra pensar nos astronautas? É, eu também. Vestindo um traje especial, solitário e distante. Um mergulhador do universo. Ou será que não é isso?Quando você acorda, não parece que foram só 10 segundos desde que adormeceu? Como uma máquina, que só funciona ligada. Essa máquina, em que veio instalado um negócio que produz uma vozinha invisível toda vez que você lê alguma coisa. Você já reparou em como você pode forçar ela a parecer qualquer outra voz, mas ela espera você se destrair e volta a ser o que era? Ela não parece nem com a sua própria voz. Na verdade, você não consegue nem descrever como ela é.Esse máquina, em que você instalou personalidades, trejeitos e preferências. E você mesmo, ali. Parece uma lâmpada acesa.  Ou um fantasma da máquina. E não é o que todos somos? Todas essas tralhas não valem tudo isso. Você pode inventá-las, trocá-las ou jogar um punhado delas no lixo. E não importa o quanto você pinte-as de ouro. Serão só coisas, que você guarda dentro da sua cabeça. Elas vêm e vão. Isso é só o agora. As grandes mudanças, aquelas que realmente ficam, acontecem em silêncio, quase em segredo, dentro de um cantinho escondido em alguém. E, quando acontecer em você, provavelmente não valerá a pena contar para ninguém. Já reparou que a gente pode ser o que quiser? E a vida é curta.

Mãos

8 abr

As nuvens escorrem pelos olhos, bem acima da colcha de retalhos dos países que eu ainda não sei o nome. O pé sem peso rema vida acima. E te observo, grandiosa, eterna e bonita. Uma deusa menina envolta em seus panos, ronronando meiguices enquanto balança seus cabelos arco-íris.
Já não lembro das mil palavras que aprendi pra te dizer. Já não sei histórias, retratos ou chocolates. Já não sei da nudez quando exposta a carne. Aqui do alto te respiro e te desenho um sorriso. Longe do cotidiano, avizinhando-se naquilo que somente existe. E a tua mão é a tua mão e junto à minha somos. Somos o Eu que nós somos. E seremos, não importa o final que o mundo tenha.

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