Miúdez.

19 abr

A sensação estranha. As miudezas que só você vai dar atenção. As pequenas maravilhas singulares, charmosas e nostálgicas. Aquele evento dourado, irremediavelmente medíocre, que registramos na cabeça. Os grandes sonhos, as viagens, os amigos, as namoradas, as famílias, devidamente nomeados e arquivados nos seus armários.  As regras, os sentimentos e os deveres.
Todas essas coisas que você chama de lego e amontoa uma em cima da outra para construir uma identidade. Uma identidade que seja feito uma tocha dentro de uma caverna, que derreta a escuridão. Etiquetando os carinhos, as conversas, equalizando as atenções. Inventando sonhos que sejam coerentes ao monte de tralhas que você enfiou garganta abaixo. E as crenças, como quando o seu peito dói e você chama de tristeza, saudade, solidão. Você enumera em uma lista as coisas que te fazem feliz e diz para si mesmo que daqui em diante sua distração será passar os dias tentando descobrir um jeito de conseguí-las mais e mais. E então você se junta a outras pessoas e desperdiça horas falando sobre tudo isso. E sexo, futebol e bebidas. E sapatos, esmaltes e cabelos. Você volta para casa e, com a cabeça no travesseiro, brinca de piscar os olhos para ver como ele muda de posição. E reclassifica, etiqueta, guarda, muda de lugar todas aquelas coisas que você trouxe do mundo lá fora. Feito um astronauta.Você já parou pra pensar nos astronautas? É, eu também. Vestindo um traje especial, solitário e distante. Um mergulhador do universo. Ou será que não é isso?Quando você acorda, não parece que foram só 10 segundos desde que adormeceu? Como uma máquina, que só funciona ligada. Essa máquina, em que veio instalado um negócio que produz uma vozinha invisível toda vez que você lê alguma coisa. Você já reparou em como você pode forçar ela a parecer qualquer outra voz, mas ela espera você se destrair e volta a ser o que era? Ela não parece nem com a sua própria voz. Na verdade, você não consegue nem descrever como ela é.Esse máquina, em que você instalou personalidades, trejeitos e preferências. E você mesmo, ali. Parece uma lâmpada acesa.  Ou um fantasma da máquina. E não é o que todos somos? Todas essas tralhas não valem tudo isso. Você pode inventá-las, trocá-las ou jogar um punhado delas no lixo. E não importa o quanto você pinte-as de ouro. Serão só coisas, que você guarda dentro da sua cabeça. Elas vêm e vão. Isso é só o agora. As grandes mudanças, aquelas que realmente ficam, acontecem em silêncio, quase em segredo, dentro de um cantinho escondido em alguém. E, quando acontecer em você, provavelmente não valerá a pena contar para ninguém. Já reparou que a gente pode ser o que quiser? E a vida é curta.

3 Respostas para “Miúdez.”

  1. Gustavo (sobrinho) abril 26, 2010 às 1:09 am #

    a grandeza do homem está em perceber quão pequeno é e saber que na sua muidez pode fazer enormes diferenças….
    pode-se ser o que quiser, mas sempre será si mesmo…

    cuide-se e saudades

  2. Marcelo maio 19, 2010 às 7:18 pm #

    Este texto é absurdamente sensacional.

    Eu achei que já tinha lido todas as palavras que um poeta poderia dizer, mas não, amigo! Você consegue trasgredir os limites do imaginável e descritível com sobras!

    Sobre o texto em si, nem vou comentar, para não perder alguns dias aqui escrevendo.

    Um simples abraço!

  3. viniciusquesada maio 19, 2010 às 7:34 pm #

    ah, quem me dera fosse tanto!

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