Arquivos | julho, 2010

Lampejo do alentejo

22 jul

Em um instante encontraríamos espaço suficiente para este lampejo, afinal, que o é merecido o retrato. E escreveriam-se canções, maremotos populares dessa juventude cansada, que vivendo de mãos dadas com a aversão que lhe convém, mastigaria então a carne exposta. Sentimentos são coisa perigosa, estes opiódes da mente que fingimos abocanhar o peito.

Questão é que, ponderados os acasos e aliterações e verbetes, findaria-se o instante, que é este o qual lho vamo-nos a tomar cerca. Em um canto qualquer daquela blusa listrada, tomaremos então o rumo imediato: a provocação intelectual é o manifesto flertivo que lhe derretia a rabugice, que, fato era, servia feito um decifra-me e te devoro, assim mesmo, com a aditiva que subverte o tradicional dizer.  Óbvio, não deixaria de ser, morrer-se-ia de fome com tantos muros sombreando sua espécie. Todo o rogo torto, porém, é cabível e eis aqui algo que não podemos ignorar, que é o orgulho de uma pessoa tão extensa, quase um país, no sentido bom, se assim o é possível, da palavra.

Bom, pois, que a história é cheia de efemeridades carcomidas e assim, de bom grado aceita-se um pouco de amenidade. Soou a voz ao telemóvel, rouca e entediada, vindo de outra década talvez, titubeando em dançantes argumentos com sabor de comida congelada. A pieguice de hoje é o pão de amanhã. Dito isso, parece óbvio, uma dama cheia de arestas não iria mesmo confirmar com um estrondoso Sim. Mas era feriado, fazia frio, a televisão não estava lá essas coisas e o convite lhe pareceu a melhor das piores hipóteses. Vestiu-se nos piores farrapos, que assim o fazem as mulheres quando desconfiam de si mesmas, ou assim preferem, para evitar decepções. Enfiou-se em um táxi, que pelo avanço das horas pode-se santificar nesta cidade o imigrante que trabalha nas madrugadas frias, ao que lhe agradeceu em nome de Deus a parada.

Deslizou sorrateira, encontrando um canto para proteger-se. Perguntou pelo whisky, selecionou dois ou três homens a lhe oferecerem isqueiros. Tomou duas doses antes de sair, dez minutos antes do combinado. Não suportava mais as pessoas, ou talvez não queria, a esta altura, alguém entre suas pernas que pudesse verdadeiramente fazê-la viva.

Um lugar chamado Quinze Vinte e Três

1 jul

Aquela era, de fato, uma casa muito engraçada. Ainda guardo na memória os detalhes  dos azulejos vermelhos e desenhos de cada pedacinho de mofo que jazia ali. Numa ruelinha sem beira que já nem lembro o nome, número quinze vinte e três.
Lembro-me da sensação ao entrar naquele que viria a ser meu primeiro barraco. A sujeira e a poeira – que são coisas distintas e indistinguíveis – se amontoavam uma sobre a outra e os passos imprimiam pegadas onde fosse. O cheiro de detetização pairando sobre o cemitério de insetos. As baratas resistindo até o ultimo franzir de pernas.
A imensa faxina. Eu ainda menino, com a vida toda enfiada em duas malas. E em sacolas plásticas cheias de nós. Solitário e desbravador. Uns tantos tapetes roubados estendidos no chão. Ao centro, uma mesinha circular de 50 cm com figuras de rosas coladas. O cheiro de detergente que ia cedendo gradativamente ao cheiro de gente. O barraco virando lar. Eu, no alto da noite, sozinho, agachado no chão, admirando assustado aquela enorme sala vazia.
Sem dinheiro para beber. A água esbranquiçada que saia da torneira. O sol ameno e o tom alaranjado que aquela sala adquiria aos sábados. Minha gatinha de patas brancas caçando as moscas. O quintal grunge. As promessas e sonhos. A cozinha cheia de reflexões e amizades. Meu velho quarto de lençóis eternamente usados. As roupas embaraçadas por todo canto.
Os outros quartos, as novas vidas. A triste bela família de saltimbancos. Com almoços e faxinas de domingo, feito uma família. As despedidas. O tempo em que ficamos jogados eu e aquele irmão mais velho que me ensinava violão, desdenhando o mundo que desdenhava a gente. O quarto verde. As poltronas achadas no lixo. A chegada dos outros dois mosqueteiros e a proclamação da república. Os churrascos voluptuosos. O sorriso característico daquela família estranha de garotos. Bolsos furados e chinelos baratos. As camélias vinham de toda a parte conhecer o meu barraco.
Pingo e Fejuca, os gatos yin-yang. As manhãs de ressaca sentado na calçada, muito mais cedo do que qualquer vida andante. A camisa da Seleção Brasileira de Futebol. As rodas de improviso. As composições. Meus melhores amigos. As gargalhadas ao encontrar os dez centavos que faltavam para completar a vaquinha do pastel.
Os móveis que montávamos com as coisas que os outros jogavam no lixo. Os braços de plástico dos manequins. A árvore daquele Natal. A morte do Pingo. As viagens no furgão do Cabeça. As manhãs estendido entre o mato que crescia na beirada dos azulejos. A minha década de 90 perdida, achada e revivida. Nos separamos todos, muitos nunca mais tornei a ver. Mas tenho certeza que todos mencionarão com um olhar de honra ter passado naquele lugar.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.