Um lugar chamado Quinze Vinte e Três

1 jul

Aquela era, de fato, uma casa muito engraçada. Ainda guardo na memória os detalhes  dos azulejos vermelhos e desenhos de cada pedacinho de mofo que jazia ali. Numa ruelinha sem beira que já nem lembro o nome, número quinze vinte e três.
Lembro-me da sensação ao entrar naquele que viria a ser meu primeiro barraco. A sujeira e a poeira – que são coisas distintas e indistinguíveis – se amontoavam uma sobre a outra e os passos imprimiam pegadas onde fosse. O cheiro de detetização pairando sobre o cemitério de insetos. As baratas resistindo até o ultimo franzir de pernas.
A imensa faxina. Eu ainda menino, com a vida toda enfiada em duas malas. E em sacolas plásticas cheias de nós. Solitário e desbravador. Uns tantos tapetes roubados estendidos no chão. Ao centro, uma mesinha circular de 50 cm com figuras de rosas coladas. O cheiro de detergente que ia cedendo gradativamente ao cheiro de gente. O barraco virando lar. Eu, no alto da noite, sozinho, agachado no chão, admirando assustado aquela enorme sala vazia.
Sem dinheiro para beber. A água esbranquiçada que saia da torneira. O sol ameno e o tom alaranjado que aquela sala adquiria aos sábados. Minha gatinha de patas brancas caçando as moscas. O quintal grunge. As promessas e sonhos. A cozinha cheia de reflexões e amizades. Meu velho quarto de lençóis eternamente usados. As roupas embaraçadas por todo canto.
Os outros quartos, as novas vidas. A triste bela família de saltimbancos. Com almoços e faxinas de domingo, feito uma família. As despedidas. O tempo em que ficamos jogados eu e aquele irmão mais velho que me ensinava violão, desdenhando o mundo que desdenhava a gente. O quarto verde. As poltronas achadas no lixo. A chegada dos outros dois mosqueteiros e a proclamação da república. Os churrascos voluptuosos. O sorriso característico daquela família estranha de garotos. Bolsos furados e chinelos baratos. As camélias vinham de toda a parte conhecer o meu barraco.
Pingo e Fejuca, os gatos yin-yang. As manhãs de ressaca sentado na calçada, muito mais cedo do que qualquer vida andante. A camisa da Seleção Brasileira de Futebol. As rodas de improviso. As composições. Meus melhores amigos. As gargalhadas ao encontrar os dez centavos que faltavam para completar a vaquinha do pastel.
Os móveis que montávamos com as coisas que os outros jogavam no lixo. Os braços de plástico dos manequins. A árvore daquele Natal. A morte do Pingo. As viagens no furgão do Cabeça. As manhãs estendido entre o mato que crescia na beirada dos azulejos. A minha década de 90 perdida, achada e revivida. Nos separamos todos, muitos nunca mais tornei a ver. Mas tenho certeza que todos mencionarão com um olhar de honra ter passado naquele lugar.

2 Respostas para “Um lugar chamado Quinze Vinte e Três”

  1. Thiago julho 29, 2010 às 3:52 am #

    !!!! As minhas palavras sai em forma Palmas !!!
    uahauhuaPuts….dificil fala….

  2. Angélica agosto 2, 2010 às 5:54 pm #

    Poutz, senti todas as emoções não vividas, ou diferentemente vividas!
    Ví o pingo, e também as baratas que custam a morrer!

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