Aquela era, de fato, uma casa muito engraçada. Ainda guardo na memória os detalhes dos azulejos vermelhos e desenhos de cada pedacinho de mofo que jazia ali. Numa ruelinha sem beira que já nem lembro o nome, número quinze vinte e três.
Lembro-me da sensação ao entrar naquele que viria a ser meu primeiro barraco. A sujeira e a poeira – que são coisas distintas e indistinguíveis – se amontoavam uma sobre a outra e os passos imprimiam pegadas onde fosse. O cheiro de detetização pairando sobre o cemitério de insetos. As baratas resistindo até o ultimo franzir de pernas.
A imensa faxina. Eu ainda menino, com a vida toda enfiada em duas malas. E em sacolas plásticas cheias de nós. Solitário e desbravador. Uns tantos tapetes roubados estendidos no chão. Ao centro, uma mesinha circular de 50 cm com figuras de rosas coladas. O cheiro de detergente que ia cedendo gradativamente ao cheiro de gente. O barraco virando lar. Eu, no alto da noite, sozinho, agachado no chão, admirando assustado aquela enorme sala vazia.
Sem dinheiro para beber. A água esbranquiçada que saia da torneira. O sol ameno e o tom alaranjado que aquela sala adquiria aos sábados. Minha gatinha de patas brancas caçando as moscas. O quintal grunge. As promessas e sonhos. A cozinha cheia de reflexões e amizades. Meu velho quarto de lençóis eternamente usados. As roupas embaraçadas por todo canto.
Os outros quartos, as novas vidas. A triste bela família de saltimbancos. Com almoços e faxinas de domingo, feito uma família. As despedidas. O tempo em que ficamos jogados eu e aquele irmão mais velho que me ensinava violão, desdenhando o mundo que desdenhava a gente. O quarto verde. As poltronas achadas no lixo. A chegada dos outros dois mosqueteiros e a proclamação da república. Os churrascos voluptuosos. O sorriso característico daquela família estranha de garotos. Bolsos furados e chinelos baratos. As camélias vinham de toda a parte conhecer o meu barraco.
Pingo e Fejuca, os gatos yin-yang. As manhãs de ressaca sentado na calçada, muito mais cedo do que qualquer vida andante. A camisa da Seleção Brasileira de Futebol. As rodas de improviso. As composições. Meus melhores amigos. As gargalhadas ao encontrar os dez centavos que faltavam para completar a vaquinha do pastel.
Os móveis que montávamos com as coisas que os outros jogavam no lixo. Os braços de plástico dos manequins. A árvore daquele Natal. A morte do Pingo. As viagens no furgão do Cabeça. As manhãs estendido entre o mato que crescia na beirada dos azulejos. A minha década de 90 perdida, achada e revivida. Nos separamos todos, muitos nunca mais tornei a ver. Mas tenho certeza que todos mencionarão com um olhar de honra ter passado naquele lugar.
!!!! As minhas palavras sai em forma Palmas !!!
uahauhuaPuts….dificil fala….
Poutz, senti todas as emoções não vividas, ou diferentemente vividas!
Ví o pingo, e também as baratas que custam a morrer!